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domingo, 12 de fevereiro de 2017

A Peleja do Diabo com o dono do Céu - Zé Ramalho


Poucos artistas na música brasileira conseguiram traduzir a alma do sertão e a pulsação mística do país como Zé Ramalho. No final da década de 1970, em meio a um Brasil mergulhado em transformações sociais e políticas, ele lançou um disco que viria a se tornar um marco definitivo em sua carreira: A Peleja do Diabo com o Dono do Céu (1979).
Se seu primeiro álbum já havia apresentado um compositor de timbre inconfundível e poesia visionária, foi nesse segundo trabalho que Zé consolidou sua identidade artística, misturando cordel, rock, baião e psicodelia em uma narrativa ousada e arrebatadora. Este não foi apenas um álbum, mas um verdadeiro duelo sonoro entre o popular e o universal, o profano e o sagrado.

Breve histórico até o lançamento
Antes de chegar a esse momento, Zé Ramalho havia construído sua reputação nos palcos do Nordeste e em festivais, trazendo na bagagem a influência de Luiz Gonzaga, Bob Dylan, Jackson do Pandeiro e Pink Floyd. Seu disco de estreia, homônimo, em 1978, foi um sucesso inesperado, alavancado por canções como “Avôhai”, que abriram as portas para a crítica e o público.
A pressão para o segundo trabalho era imensa. Zé, no entanto, não se intimidou: mergulhou fundo em sua veia lírica nordestina, trazendo referências bíblicas, elementos do folclore e uma ousadia rítmica que colocava sanfona e guitarra elétrica lado a lado.

Faixas em destaque: a narrativa de um duelo cósmico
O álbum possui 10 faixas, todas atravessadas por uma energia quase teatral. Vale destacar algumas joias desse repertório:
Admirável Gado Novo - Talvez a música mais icônica de sua carreira, é uma crítica feroz às massas manipuladas, às repetições do cotidiano e ao conformismo social. O refrão virou símbolo de resistência e até hoje ecoa em manifestações e documentários.
Frevo Mulher - Um hino pulsante, que mistura sensualidade e ritmo carnavalesco. Com versos fortes e melodia contagiante, a canção se tornou um clássico instantâneo e uma das mais regravadas da obra de Zé.
Jardim das Acácias - Aqui, o artista explora uma atmosfera mística e contemplativa, criando imagens poéticas que misturam o sertão e o espiritual.
Agônico - Carregada de dramaticidade, a faixa traduz o lado mais sombrio da “peleja”, trazendo um vocal intenso que beira a catarse.
Beira-Mar - Outra canção emblemática, que depois ganharia desdobramentos em discos posteriores do cantor. É uma narrativa épica, que mistura tragédia pessoal e metáfora social.
Cada faixa, à sua maneira, constrói o mosaico de um sertão mítico, onde personagens reais e imaginários se enfrentam em uma batalha simbólica.

Estilo musical, influências e inovação
O grande trunfo de A Peleja do Diabo com o Dono do Céu é sua ousadia estética. Zé Ramalho não se limitou a reproduzir tradições do Nordeste: ele as fundiu com elementos do rock progressivo, da psicodelia e até da música folk internacional.
O disco é, ao mesmo tempo, profundamente brasileiro e universal. Há ecos de Bob Dylan na narrativa lírica, de Pink Floyd nas atmosferas sonoras, e de Luiz Gonzaga no uso do baião e da sanfona. Essa mistura resultou em um som atemporal, que influenciou gerações seguintes de artistas nordestinos e da MPB.

Recepção da crítica e impacto cultural
No lançamento, em 1979, o disco foi recebido com entusiasmo pela crítica, que destacou a ousadia lírica e a força das composições. “Admirável Gado Novo” rapidamente ganhou status de clássico e, nos anos 1990, foi reintroduzida a uma nova geração ao ser incluída na trilha da novela O Rei do Gado.
Comparado ao álbum de estreia, A Peleja do Diabo... mostrou um Zé Ramalho mais confiante, expandindo seu universo poético. A crítica o reconheceu como um dos grandes nomes da nova música nordestina, ao lado de Alceu Valença, Geraldo Azevedo e Elba Ramalho, que juntos ajudavam a renovar a MPB naquele período.
Culturalmente, o álbum marcou por ser um dos primeiros a trazer para o centro do mercado fonográfico um discurso crítico e popular vindo do sertão, sem abrir mão de apelo comercial.

Curiosidades e bastidores
O título do disco é inspirado na tradição dos folhetos de cordel, em que duelos entre figuras míticas eram narrados em versos rimados.
“Frevo Mulher” foi composta originalmente para Elba Ramalho, prima de Zé, mas acabou entrando no disco do cantor antes de ser gravada por ela.
A capa do álbum, cheia de simbolismos, reforça a ideia do confronto cósmico entre forças antagônicas, traduzindo visualmente o espírito do trabalho.
O sucesso de “Admirável Gado Novo” foi tão grande que a música acabou sendo quase um hino involuntário das Diretas Já na década seguinte.

O legado de uma peleja eterna
Mais de quatro décadas após seu lançamento, A Peleja do Diabo com o Dono do Céu segue como um dos discos mais importantes da música brasileira. É uma obra que prova como Zé Ramalho soube transformar o regional em universal, sem perder a essência de sua raiz nordestina.
Se o primeiro álbum o apresentou como promessa, este segundo o consolidou como um dos maiores poetas da canção brasileira. Ainda hoje, suas faixas ressoam em festivais, playlists e nos corações de quem encontra, nas metáforas de Zé, a tradução da luta cotidiana entre esperança e desencanto.


Faixas

01 - A Peleja do diabo com o Dono do Céu
02 - Admirável Gado Novo
03 - Falas do Povo
04 - Beira-Mar
05 - Garoto de Aluguel (Taxi Boy)
06 - Pelo Vinho e Pelo Pão
07 - Mote das Amplidões
08 - Jardim das Acácias
09 - Agônico
10 - Frevo Mulher