Poucos artistas na música brasileira conseguiram traduzir a alma do sertão e a pulsação mística do país como Zé Ramalho. No final da década de 1970, em meio a um Brasil mergulhado em transformações sociais e políticas, ele lançou um disco que viria a se tornar um marco definitivo em sua carreira: A Peleja do Diabo com o Dono do Céu (1979).
Se seu primeiro álbum já havia apresentado um compositor de timbre inconfundível e poesia visionária, foi nesse segundo trabalho que Zé consolidou sua identidade artística, misturando cordel, rock, baião e psicodelia em uma narrativa ousada e arrebatadora. Este não foi apenas um álbum, mas um verdadeiro duelo sonoro entre o popular e o universal, o profano e o sagrado.
Breve histórico até o lançamento
Antes de chegar a esse momento, Zé Ramalho havia construído sua reputação nos palcos do Nordeste e em festivais, trazendo na bagagem a influência de Luiz Gonzaga, Bob Dylan, Jackson do Pandeiro e Pink Floyd. Seu disco de estreia, homônimo, em 1978, foi um sucesso inesperado, alavancado por canções como “Avôhai”, que abriram as portas para a crítica e o público.
A pressão para o segundo trabalho era imensa. Zé, no entanto, não se intimidou: mergulhou fundo em sua veia lírica nordestina, trazendo referências bíblicas, elementos do folclore e uma ousadia rítmica que colocava sanfona e guitarra elétrica lado a lado.
Faixas em destaque: a narrativa de um duelo cósmico
O álbum possui 10 faixas, todas atravessadas por uma energia quase teatral. Vale destacar algumas joias desse repertório:
Admirável Gado Novo - Talvez a música mais icônica de sua carreira, é uma crítica feroz às massas manipuladas, às repetições do cotidiano e ao conformismo social. O refrão virou símbolo de resistência e até hoje ecoa em manifestações e documentários.
Frevo Mulher - Um hino pulsante, que mistura sensualidade e ritmo carnavalesco. Com versos fortes e melodia contagiante, a canção se tornou um clássico instantâneo e uma das mais regravadas da obra de Zé.
Jardim das Acácias - Aqui, o artista explora uma atmosfera mística e contemplativa, criando imagens poéticas que misturam o sertão e o espiritual.
Agônico - Carregada de dramaticidade, a faixa traduz o lado mais sombrio da “peleja”, trazendo um vocal intenso que beira a catarse.
Beira-Mar - Outra canção emblemática, que depois ganharia desdobramentos em discos posteriores do cantor. É uma narrativa épica, que mistura tragédia pessoal e metáfora social.
Cada faixa, à sua maneira, constrói o mosaico de um sertão mítico, onde personagens reais e imaginários se enfrentam em uma batalha simbólica.
Estilo musical, influências e inovação
O grande trunfo de A Peleja do Diabo com o Dono do Céu é sua ousadia estética. Zé Ramalho não se limitou a reproduzir tradições do Nordeste: ele as fundiu com elementos do rock progressivo, da psicodelia e até da música folk internacional.
O disco é, ao mesmo tempo, profundamente brasileiro e universal. Há ecos de Bob Dylan na narrativa lírica, de Pink Floyd nas atmosferas sonoras, e de Luiz Gonzaga no uso do baião e da sanfona. Essa mistura resultou em um som atemporal, que influenciou gerações seguintes de artistas nordestinos e da MPB.
Recepção da crítica e impacto cultural
No lançamento, em 1979, o disco foi recebido com entusiasmo pela crítica, que destacou a ousadia lírica e a força das composições. “Admirável Gado Novo” rapidamente ganhou status de clássico e, nos anos 1990, foi reintroduzida a uma nova geração ao ser incluída na trilha da novela O Rei do Gado.
Comparado ao álbum de estreia, A Peleja do Diabo... mostrou um Zé Ramalho mais confiante, expandindo seu universo poético. A crítica o reconheceu como um dos grandes nomes da nova música nordestina, ao lado de Alceu Valença, Geraldo Azevedo e Elba Ramalho, que juntos ajudavam a renovar a MPB naquele período.
Culturalmente, o álbum marcou por ser um dos primeiros a trazer para o centro do mercado fonográfico um discurso crítico e popular vindo do sertão, sem abrir mão de apelo comercial.
Curiosidades e bastidores
• O título do disco é inspirado na tradição dos folhetos de cordel, em que duelos entre figuras míticas eram narrados em versos rimados.
• “Frevo Mulher” foi composta originalmente para Elba Ramalho, prima de Zé, mas acabou entrando no disco do cantor antes de ser gravada por ela.
• A capa do álbum, cheia de simbolismos, reforça a ideia do confronto cósmico entre forças antagônicas, traduzindo visualmente o espírito do trabalho.
• O sucesso de “Admirável Gado Novo” foi tão grande que a música acabou sendo quase um hino involuntário das Diretas Já na década seguinte.
O legado de uma peleja eterna
Mais de quatro décadas após seu lançamento, A Peleja do Diabo com o Dono do Céu segue como um dos discos mais importantes da música brasileira. É uma obra que prova como Zé Ramalho soube transformar o regional em universal, sem perder a essência de sua raiz nordestina.
Se o primeiro álbum o apresentou como promessa, este segundo o consolidou como um dos maiores poetas da canção brasileira. Ainda hoje, suas faixas ressoam em festivais, playlists e nos corações de quem encontra, nas metáforas de Zé, a tradução da luta cotidiana entre esperança e desencanto.
Faixas
01 - A
Peleja do diabo com o Dono do Céu
02 -
Admirável Gado Novo
03 - Falas
do Povo
04 -
Beira-Mar
05 - Garoto
de Aluguel (Taxi Boy)
06 - Pelo
Vinho e Pelo Pão
07 - Mote
das Amplidões
08 - Jardim
das Acácias
09 - Agônico
10 - Frevo
Mulher
