Summer Eletrohits 2018: o som que marcou (e dividiu) um
verão eletrônico
Mais do que uma simples coletânea, Summer Eletrohits 2018 simboliza um momento de transição na cena eletrônica brasileira: migrando do pop eletro comercial para um território mais autoral, underground e experimental. Lançado sob o selo Austro Music em parceria com a Som Livre, esse “álbum” de 2018 assumiu o risco de trazer artistas menos batidos ao grande público, ofertando um painel fascinante (e nem sempre homogêneo) dos caminhos que a música eletrônica brasileira poderia tomar.
Introdução: a batida do verão que ousou mudar
Se você morou o verão de 2018 no Brasil com fones no
colégio, no carro ou naquela balada local, é bem provável que tenha cruzado com
o nome Summer Eletrohits 2018. Mas, diferentemente das edições
anteriores, este volume não veio para repetir fórmulas — ele veio para sacudir.
Em vez de focar apenas nos hits consolidados, a coletânea explorou nomes mais
ousados, remixes inéditos, encontros entre DJ’s nacionais e vozes pop, tudo
isso tentando abrir espaço para uma eletrônica brasileira mais densa.
Para quem aguardava aquele som previsível de verão, foi um banho de água fria — ou de piscina, dependendo do ponto de vista. E foi justamente essa ruptura que o faz tão interessante de revisitar hoje.
História da marca e do projeto Summer Eletrohits
até 2018
Antes de mergulharmos nas faixas, vale um panorama para
entender o contexto. Summer Eletrohits é uma série de coletâneas
idealizada pela Som Livre em parceria com o programa TVZ do canal
Multishow. A primeira edição saiu em 2005, e desde então o projeto virou marca
registrada dos verões brasileiros, com CDs anuais compilando os hits
eletrônicos do momento.
Durante anos, a fórmula foi relativamente segura: músicas
que já estavam chamando atenção nas rádios, nas pistas, nos programas de TV.
Muitos volumes receberam certificações de platina pela ABPD e figuraram entre
os CDs mais vendidos do ano.
Porém, segundo a própria história da coletânea, a partir de Summer Eletrohits 2018 houve uma mudança deliberada: “a coletânea trouxe músicas em sua maioria desconhecidas do grande público em comparação com edições anteriores, abandonando a pegada comercial e focando em um estilo mais alternativo.” Esse movimento divide os fãs: uns elogiam a ousadia, outros reclamam da menor atratividade comercial das faixas.
Análise das faixas (ou destaques)
Como se trata de uma compilação com 17 ou mais músicas
(depende da versão digital/física), vou destacar aquelas que mais representam o
espírito do álbum — as que surpreendem, arriscam ou ecoam até hoje.
1. “Your Power” – WAO & GANNAH
Faixa de abertura com vocais etéreos e batidas leves, ela atua como um convite:
“vem comigo para um território mais emocional”. Não é hit óbvio, mas tem aquele
apelo de descoberta.
2. “One Nation (feat. Luizor EIM)” – D.I.B
Aqui entra um groove mais firme, com percussão eletrônica pulsante e o vocal de
Luizor entregando uma melodia que casa bem com sintetizadores densos. É
transição natural entre o frescor inicial e o peso intermediário.
3. “Infinito Particular (feat. Silva)” – Bhaskar
Um dos pontos altos do álbum. A junção de Bhaskar com Silva dá um tom
brasileiro forte, misturando elementos eletrônicos com uma assinatura pop suave
e vocal íntimo. O remix presente aqui muda levemente a textura sonora.
4. “Vem Quente Que Eu Estou Fervendo (feat. Rivas)”
Uma faixa que joga no contraste: título chamativo, batidas aceleradas, vocal
rasgado — funciona bem como um interlúdio explosivo. É quase uma faixa para
pista, mas com referência direta ao Brasil (“vem quente…”).
Outros destaques da coletânea
Há remixes e músicas menos conhecidas que servem como mosaico da nova
eletrônica nacional. Algumas se perdem no meio da compilação, com energias mais
genéricas, algo que críticos e fãs já mencionaram em fóruns de discussão sobre
o Summer Eletrohits.
Estilo musical, influências e inovação
O que torna Summer Eletrohits 2018 fascinante é que
ele não se contenta em repetir fórmulas prontas. Há uma oscilação entre baladas
eletrônicas introspectivas e faixas mais voltadas para pista — quase como se
três EPs menores vivessem sob a mesma coletânea.
As influências vão do future bass, synthwave, house
melódico, passando por até traços de downtempo e eletrônico pop. Pode-se
perceber ecos de nomes internacionais da eletrônica leve (como ODESZA,
Disclosure) e também de movimentos nacionais que buscavam eletrônica com
identidade brasileira — o que dá ao álbum um tom híbrido e de desafio.
A inovação está justamente em “dar voz” a músicas que não teriam vez em volumes mais pop do Summer Eletrohits. Ao fazê-lo, o projeto empurra o público a ouvir algo novo, e não simplesmente repetir hits comerciais.
Recepção da crítica e impacto cultural
A recepção dividiu-se entre elogios pela ousadia e críticas
pela menor atratividade — um padrão comum em projetos que tentam romper
limites. Em fóruns de música brasileira, como no Reddit, já apareceu comentário
como:
"Summer electrohits is nostalgic for several songs, but
it wasn’t uniform in quality. The first songs of each collection were great
and are still great hits from that era. But when it gets to the middle to the
end, it starts to play some very bland batidão electronica..."
Ou seja: muitos fãs amam os primeiros momentos da coletânea,
mas sentem que ela perde fôlego. Comparado aos volumes clássicos, 2018 é
frequentemente citado como um ponto de inflexão — não mais um álbum de públicos
massificados, mas um experimento de curadoria sonora.
Em termos de impacto cultural, Summer Eletrohits 2018 serviu como parâmetro para edições futuras da série e também como vitrine (ainda que modesta) para nomes emergentes da eletrônica nacional. Foi um divisor de águas: quem esperava hits óbvios se desapontou; quem estava à espreita de novos caminhos encontrou algumas pepitas.
Curiosidades e bastidores
- A
série Summer Eletrohits já existia desde 2005 e era
tradicionalmente focada nos hits mais comerciais; a edição 2018 foi a mais
claramente “alternativa” da história da coletânea.
- Os
primeiros anos da coletânea contaram com curadoria de DJs e executivos da
Som Livre, como André Werneck e Renê Junior.
- Algumas
edições anteriores foram lançadas também em DVD ou versão deluxe digital.
- Embora
o álbum leve o nome “2018”, em função do Carnaval antecipado aquele ano,
ele foi lançado mais tarde do que o usual para compensar cronogramas.
- A edição aposta em músicas “desconhecidas” do grande público, abandonando em parte a pegada comercial mais segura.
Legado e importância
Passados alguns anos, Summer Eletrohits 2018 deve ser
visto com carinho e curiosidade, não apenas como um álbum, mas como um
manifesto musical. Ele representa o momento em que uma marca consolidada — a
coletânea de verão — decidiu se ressaltar, se reinventar, se arriscar. Nem
todas as faixas voam alto, mas algumas brilham intensamente.
Seu legado não está nos números de vendas (que, aliás, foram
menores que edições mais pop), mas no simbolismo: mostrar que o público
brasileiro também está disposto a escutar o novo, a experimentar além dos hits
triviais. Para quem se interessa por música eletrônica brasileira, esse volume
de 2018 é um ótimo ponto de observação — e, talvez, uma porta de entrada para
DJs e produtores menos conhecidos.
Se você volta ao álbum hoje, pode identificar ali um embrião
das vertentes eletrônicas que ganhariam mais espaço nos anos seguintes. E mais:
lembra como, no verão, era bom arriscar algo diferente — mesmo que não fosse
certeiro.

