No início dos anos 80, Zé Ramalho já era um nome consolidado na MPB, graças aos álbuns Zé Ramalho (1978) e A Peleja do Diabo com o Dono do Céu (1979), que mesclavam ritmos nordestinos com letras carregadas de misticismo e crítica social. Em 1981, ele lançou A Terceira Lâmina, considerado sua terceira fase sonora e poética. Produzido por Zé e Mauro Motta, o disco trazia uma sonoridade apocalíptica, com incursões líricas e metáforas que ampliavam seu alcance artístico e popularidade. Vamos embarcar nesse álbum que segue tão atual quanto instigante.
Histórico da carreira até o lançamento
Zé Ramalho surgiu no fim dos anos 70 como uma voz única dentro da MPB. Com raízes no sertão paraibano, sua poesia mesclava cordel, misticismo e uma visão quase apocalíptica do mundo. Seus primeiros discos, especialmente Zé Ramalho (1978) e A Peleja do Diabo com o Dono do Céu (1979), já mostravam essa mistura ousada de baião, forró, rock e folk psicodélico. Quando chega A Terceira Lâmina, o artista já era um nome consolidado e respeitado, mas buscava novos caminhos para expressar sua visão de mundo.
Análise das principais faixas
Aqui vão destaques que revelam a alma do disco:
Canção Agalopada - A abertura é um poema musicalizado extraído de seu livro Apocalipse (1977), com base nas formas tradicionais nordestinas “martelo agalopado” e “galope à beira-mar”. A participação da soprano Maria Lúcia Godoy traz um contraste lírico e dramático com a voz rouca de Zé Ramalho. Um convite imediato ao universo criativo do álbum.
Filhos de Ícaro - Uma faixa curta (cerca de 3 minutos), com tom profético e metáforas sobre ambição e queda. O samba pesado que acompanha a letra reforça a atmosfera de alerta social, amarrado à estética apocalíptica do disco.
A Terceira Lâmina - Segundo Zé, a canção aborda “o terceiro filho, a terceira fase” e uma visão de uma terceira guerra mundial interior e exterior. Musica-se sobre um baião pulsante, com arranjos de metais e sanfona que evocam resistência e libertação.
Um Pequeno Xote - A sanfona de Severo do Acordeom destaca-se com sutileza, criando uma atmosfera íntima, leve, que contrasta com as cores mais densas do álbum.
Atrás do Balcão - Um olhar poético sobre a rotina invisível dos trabalhadores de bar. A letra funciona como micro-reportagem social, com tom empático e observacional, reforçando a poeticidade cotidiana de Zé.
Galope Rasante - Ritmo forte, percussão marcante e uso de metais (incluindo sax de Léo Gandelman segundo análises contemporâneas), dão à faixa uma energia propulsora, quase cinematográfica.
Kamikaze e Violar - “Kamikaze” emociona pela letra sobre entrega e sacrifício, acompanhada de flauta delicada. Em seguida, “Violar” é um tema instrumental curto, quase etéreo, em que Zé mostra sua habilidade na viola, solo de técnica e sensibilidade.
Cavalos do Cão, Ave de Prata e Dia dos Adultos
A participação de Elba Ramalho em “Cavalos do Cão” cria um duelo vocal intenso, com imagem de cavalgadas sertanejas e memória de guerras. “Ave de Prata” é uma balada doce dedicada a Elba, enquanto “Dia dos Adultos” encerra o disco com um frevo rápido e festivo, lembrar de festival da TV Tupi de 1980.
Estilo musical, influências e inovação
A Terceira Lâmina combina ritmos nordestinos — forró, baião, xote, frevo — com elementos do rock e da música clássica (como os vocais líricos de Maria Lúcia Godoy e arranjos de cordas de Miguel Cidras). A inovação está na fusão de poesia, crítica social e estética apocalíptica, com arranjos sofisticados sem perder a raiz popular. Zé continua explorando sua voz profunda sobre texturas instrumentais variadas — desde sanfona, metálicos e percussões até interlúdios sem instrumento (“Violar”).
Recepção da crítica e impacto cultural
Em retrospectiva de 2020, o crítico Mauro Ferreira classificou o álbum como “incisivo”, mas o comparou desfavoravelmente aos dois primeiros trabalhos solo, afirmando que não alcança o mesmo impacto de A Peleja… e Zé Ramalho. Apesar disso, fãs persistem em reconhecer o poder poético de faixas como “Canção Agalopada”, “Galope Rasante” e “Ave de Prata”, fazendo deste álbum uma joia cult dentro da discografia do artista. Nas avaliações populares, o disco é lembrado como “repleto de músicas sem skips”, forte em poesia e instrumentos que exaltam a cultura do Nordeste.
Comparado com A Peleja…, A Terceira Lâmina traz menos hits de massa, mas uma profundidade lírica que se sustenta ao longo dos anos — e prepara terreno para o álbum Força Verde (1982), que aprofundaria a trilogia temática iniciada neste trabalho.
Curiosidades e bastidores
• A abertura “Canção Agalopada” nasceu de um poema de Zé Ramalho publicado no livro Apocalipse (1977) e segue a tradição da literatura de cordel com formas rítmicas próprias.
• A faixa-título reflete simbolicamente a “terceira cria”, ou terceira fase do artista, além de referências a uma guerra mundial emocional interna e coletiva.
• A produção foi feita nos Estúdios Sigla em janeiro de 1981, com Zé e Mauro Motta no comando.
Legado e importância
Embora não tenha o mesmo apelo comercial dos dois primeiros álbuns solo de Zé Ramalho, A Terceira Lâmina permanece como um trabalho essencialíssimo para fãs e estudiosos da MPB. Ele marca uma evolução poética e sonora: arranjos refinados, metáforas literárias e uma amalgama de gêneros que ampliam o repertório do artista além dos hits consagrados. A forma como conecta narrativa, crítica social e tradição nordestina dá ao disco status de cult — e o coloca como uma ponte para o próximo passo da trajetória: Força Verde.
Ao revisitar A Terceira Lâmina, percebemos a maturidade de Zé em expressar crises coletivas e individuais com linguagem popular e sofisticada ao mesmo tempo. Um disco para se ouvir com atenção, alma e o coração aberto.
Faixas
01 - Canção agalopada
02 - Filhos de Ícaro
03 - A terceira lâmina
04 - Um pequeno xote
05 - Atrás do balcão
06 - Galope rasante
07 - Kamikaze
08 - Violar
09 - Cavalos do cão
10 - Ave de prata
11 - Dia dos adultos

https://drive.google.com/file/d/1RKKPoI9Zb0flIPtKcfx-BNQ8cfS--5Vl/view?usp=drive_link
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