quarta-feira, 20 de junho de 2018

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Summer Eletrohits 2018: o som que marcou (e dividiu) um verão eletrônico

Mais do que uma simples coletânea, Summer Eletrohits 2018 simboliza um momento de transição na cena eletrônica brasileira: migrando do pop eletro comercial para um território mais autoral, underground e experimental. Lançado sob o selo Austro Music em parceria com a Som Livre, esse “álbum” de 2018 assumiu o risco de trazer artistas menos batidos ao grande público, ofertando um painel fascinante (e nem sempre homogêneo) dos caminhos que a música eletrônica brasileira poderia tomar.

Introdução: a batida do verão que ousou mudar

Se você morou o verão de 2018 no Brasil com fones no colégio, no carro ou naquela balada local, é bem provável que tenha cruzado com o nome Summer Eletrohits 2018. Mas, diferentemente das edições anteriores, este volume não veio para repetir fórmulas — ele veio para sacudir. Em vez de focar apenas nos hits consolidados, a coletânea explorou nomes mais ousados, remixes inéditos, encontros entre DJ’s nacionais e vozes pop, tudo isso tentando abrir espaço para uma eletrônica brasileira mais densa.

Para quem aguardava aquele som previsível de verão, foi um banho de água fria — ou de piscina, dependendo do ponto de vista. E foi justamente essa ruptura que o faz tão interessante de revisitar hoje.

História da marca e do projeto Summer Eletrohits até 2018

Antes de mergulharmos nas faixas, vale um panorama para entender o contexto. Summer Eletrohits é uma série de coletâneas idealizada pela Som Livre em parceria com o programa TVZ do canal Multishow. A primeira edição saiu em 2005, e desde então o projeto virou marca registrada dos verões brasileiros, com CDs anuais compilando os hits eletrônicos do momento.

Durante anos, a fórmula foi relativamente segura: músicas que já estavam chamando atenção nas rádios, nas pistas, nos programas de TV. Muitos volumes receberam certificações de platina pela ABPD e figuraram entre os CDs mais vendidos do ano.

Porém, segundo a própria história da coletânea, a partir de Summer Eletrohits 2018 houve uma mudança deliberada: “a coletânea trouxe músicas em sua maioria desconhecidas do grande público em comparação com edições anteriores, abandonando a pegada comercial e focando em um estilo mais alternativo.” Esse movimento divide os fãs: uns elogiam a ousadia, outros reclamam da menor atratividade comercial das faixas.

Análise das faixas (ou destaques)

Como se trata de uma compilação com 17 ou mais músicas (depende da versão digital/física), vou destacar aquelas que mais representam o espírito do álbum — as que surpreendem, arriscam ou ecoam até hoje.

1. “Your Power” – WAO & GANNAH
Faixa de abertura com vocais etéreos e batidas leves, ela atua como um convite: “vem comigo para um território mais emocional”. Não é hit óbvio, mas tem aquele apelo de descoberta.

2. “One Nation (feat. Luizor EIM)” – D.I.B
Aqui entra um groove mais firme, com percussão eletrônica pulsante e o vocal de Luizor entregando uma melodia que casa bem com sintetizadores densos. É transição natural entre o frescor inicial e o peso intermediário.

3. “Infinito Particular (feat. Silva)” – Bhaskar
Um dos pontos altos do álbum. A junção de Bhaskar com Silva dá um tom brasileiro forte, misturando elementos eletrônicos com uma assinatura pop suave e vocal íntimo. O remix presente aqui muda levemente a textura sonora.

4. “Vem Quente Que Eu Estou Fervendo (feat. Rivas)”
Uma faixa que joga no contraste: título chamativo, batidas aceleradas, vocal rasgado — funciona bem como um interlúdio explosivo. É quase uma faixa para pista, mas com referência direta ao Brasil (“vem quente…”).

Outros destaques da coletânea
Há remixes e músicas menos conhecidas que servem como mosaico da nova eletrônica nacional. Algumas se perdem no meio da compilação, com energias mais genéricas, algo que críticos e fãs já mencionaram em fóruns de discussão sobre o Summer Eletrohits.

Estilo musical, influências e inovação

O que torna Summer Eletrohits 2018 fascinante é que ele não se contenta em repetir fórmulas prontas. Há uma oscilação entre baladas eletrônicas introspectivas e faixas mais voltadas para pista — quase como se três EPs menores vivessem sob a mesma coletânea.

As influências vão do future bass, synthwave, house melódico, passando por até traços de downtempo e eletrônico pop. Pode-se perceber ecos de nomes internacionais da eletrônica leve (como ODESZA, Disclosure) e também de movimentos nacionais que buscavam eletrônica com identidade brasileira — o que dá ao álbum um tom híbrido e de desafio.

A inovação está justamente em “dar voz” a músicas que não teriam vez em volumes mais pop do Summer Eletrohits. Ao fazê-lo, o projeto empurra o público a ouvir algo novo, e não simplesmente repetir hits comerciais.

Recepção da crítica e impacto cultural

A recepção dividiu-se entre elogios pela ousadia e críticas pela menor atratividade — um padrão comum em projetos que tentam romper limites. Em fóruns de música brasileira, como no Reddit, já apareceu comentário como:

"Summer electrohits is nostalgic for several songs, but it wasn’t uniform in quality. The first songs of each collection were great and are still great hits from that era. But when it gets to the middle to the end, it starts to play some very bland batidão electronica..."

Ou seja: muitos fãs amam os primeiros momentos da coletânea, mas sentem que ela perde fôlego. Comparado aos volumes clássicos, 2018 é frequentemente citado como um ponto de inflexão — não mais um álbum de públicos massificados, mas um experimento de curadoria sonora.

Em termos de impacto cultural, Summer Eletrohits 2018 serviu como parâmetro para edições futuras da série e também como vitrine (ainda que modesta) para nomes emergentes da eletrônica nacional. Foi um divisor de águas: quem esperava hits óbvios se desapontou; quem estava à espreita de novos caminhos encontrou algumas pepitas.

Curiosidades e bastidores

  • A série Summer Eletrohits já existia desde 2005 e era tradicionalmente focada nos hits mais comerciais; a edição 2018 foi a mais claramente “alternativa” da história da coletânea.
  • Os primeiros anos da coletânea contaram com curadoria de DJs e executivos da Som Livre, como André Werneck e Renê Junior.
  • Algumas edições anteriores foram lançadas também em DVD ou versão deluxe digital.
  • Embora o álbum leve o nome “2018”, em função do Carnaval antecipado aquele ano, ele foi lançado mais tarde do que o usual para compensar cronogramas.
  • A edição aposta em músicas “desconhecidas” do grande público, abandonando em parte a pegada comercial mais segura.

Legado e importância

Passados alguns anos, Summer Eletrohits 2018 deve ser visto com carinho e curiosidade, não apenas como um álbum, mas como um manifesto musical. Ele representa o momento em que uma marca consolidada — a coletânea de verão — decidiu se ressaltar, se reinventar, se arriscar. Nem todas as faixas voam alto, mas algumas brilham intensamente.

Seu legado não está nos números de vendas (que, aliás, foram menores que edições mais pop), mas no simbolismo: mostrar que o público brasileiro também está disposto a escutar o novo, a experimentar além dos hits triviais. Para quem se interessa por música eletrônica brasileira, esse volume de 2018 é um ótimo ponto de observação — e, talvez, uma porta de entrada para DJs e produtores menos conhecidos.

Se você volta ao álbum hoje, pode identificar ali um embrião das vertentes eletrônicas que ganhariam mais espaço nos anos seguintes. E mais: lembra como, no verão, era bom arriscar algo diferente — mesmo que não fosse certeiro.

 

FAIXAS

1. Your Power - Wao, Gannah
2. One Nation - D.I.B. Feat. Luizor Eim
3. Breakup Song - De Hofnar Feat. Son Of Patricia
4. Infinito Particular (Bhaskar Remix) - Silva
5. Rising Sun - Goldfish, Pontifexx Feat. Gustavo Bertoni
6. Vem Quente Que Eu Estou Fervendo - Rivas (Br), Danne Feat. Breno Miranda
7. Summer Love - Chemical Surf Feat. Jake Reese
8. Cold Heart - Bhaskar, Gabriel Boni Feat. Layna
9. Wicked Games - Vee Groove Feat. Luciana Gaspar
10. Paradise - Kenshin, Mojjo Feat. Marcelo Braga
11. Found U - Dimmi, Zeeba
12. In My Soul - Wao Feat. Kamatos
13. I'M Not Dreaming - D.I.B. Feat. Sam Alves
14. She Says - Nato Medrado

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Leandro e Leonardo Vol 00 (1983)


Leandro & Leonardo (1983): o primeiro passo de uma lenda do sertanejo

Quando pensamos em duplas sertanejas que deixaram marcas profundas na música brasileira, logo vem à mente Leandro & Leonardo. Mas poucos conhecem — ou valorizam — o passo inicial dessa trajetória: o álbum Leandro & Leonardo, lançado em 1983 (ou popularmente referenciado como 1984 em algumas memórias). Esse disco artesanal, nascido da persistência e da fé dos irmãos costeiros, é muito mais do que um registro antigo: é a semente de uma lenda. Neste artigo, vamos caminhar juntos por esse primeiro capítulo: entender o contexto, mostrar as faixas que o compõem, explorar suas influências e impactos e celebrar o legado que nasceria dali.

⚠️ Nota rápida: há divergência nas fontes sobre o ano exato — algumas registram 1983 como ano de gravação e lançamento inicial.
Quando você buscar esse disco nas prateleiras ou em plataformas, pode encontrá-lo com essa oscilação de datas.

Breve histórico da dupla até esse lançamento

Leandro (Luís José da Costa) e Leonardo (Emival Eterno da Costa) nasceram em Goianápolis, Goiás, e cresceram em uma realidade de simplicidade e trabalho duro. Desde cedo, o cenário musical local influenciou seus ouvidos: Chitãozinho & Xororó, Roberto Carlos, Beatles — estes repertórios ajudaram a moldar o gosto dos jovens irmãos.

Em meados de 1983, já animados pela vontade de vencer, eles decidiram gravar um disco por conta própria, com recursos próprios e apoio de amigos, vendendo o produto diretamente nos bares onde cantavam. Era um esforço artesanal, quase rural em sua concepção, mas essencial para colocar seus pés no caminho da música profissional.

O disco, embora modesto, tinha destaques, como “Hoje Acordei Chorando”, que se tornou a canção-bandeira dessa estreia. Com essa iniciativa, a dupla ingressava na fase de busca por reconhecimento e apoio de gravadoras maiores.

Análise faixa a faixa (ou destaques)

O álbum Leandro & Leonardo traz uma coletânea de canções que misturam romances, mágoas, reflexões e ambições — traços que já seriam constantes na trajetória da dupla. A seguir, vamos destacar algumas músicas relevantes:

  • Hoje Acordei Chorando
    Essa pode ser chamada de estrela do disco. Romântica, com letra simples e direta, revela a vulnerabilidade amorosa que já mostrava o foco da dupla: fazer o ouvinte se identificar. Foi a canção mais citada entre os destaques desse álbum inicial.
  • A Construção
    Uma faixa que sugere ambição poética: “construir” algo — seja no amor, no sonho ou nas relações humanas. Sua sonoridade reflete a busca de identidade de uma dupla no início da caminhada.
  • Lua de Mel
    Um momento mais suave e “clássico” no repertório, evocando o imaginário romântico de casal, lua, promessa de afeto. Ela se encaixa bem no estilo “sertanejo raiz romântico” que caracterizava essa fase.
  • Dupla Traição
    Verso direto e dor amorosa: traição é tema recorrente no universo sertanejo, e aqui a dupla já mexe nesse conflito com melodias tensas e emoção contida.
  • Meu Querido Pai
    Uma faixa tocante: voltada para o diálogo familiar, a memória, a saudade de figura paterna. Já se mostra uma dupla que, embora jovem, tenta iluminar territórios de sentimento mais profundos do que meros amores.
  • Trauma do Amor / Coração Rebelde / Minha Cruz
    Essas músicas reforçam os contrastes no disco: de dores de amor (“trauma”, “cruz”) à rebeldia emocional. São faixas que sustentam o disco com densidade, alternando tons melancólicos e de questionamento.

É importante notar que o álbum não foi amplamente revisitado com críticas formais, e as avaliações que existem são quase sempre de colecionadores ou fãs que destacam sua importância histórica mais do que sua perfeição técnica.

Estilo musical, influências e inovação presentes no álbum

Mesmo em uma fase iniciante, já se percebe que Leandro & Leonardo buscavam um equilíbrio entre o sertanejo de raiz e influências populares regionais. O estilo combina viola, violão, harmonia simples e letras sentimentais — menos lacunas instrumentais do que os sertanejos posteriores, mas também sincero e direto.

Podemos ver a influência de nomes como Chitãozinho & Xororó (que moldaram o sertanejo jovem) e a tradição do país interiorano, onde a viola e canções de amor e dor dominam. A dupla também parecia dialogar com estilos românticos populares do Brasil (cancioneiros modorrentos, melodias acessíveis), misturando com identidade sertaneja.

A inovação (relativa) desse álbum não está em quebrar paradigmas — era cedo demais para isso — mas em apresentar uma voz genuína, sem máscaras glamourosas, cantar “com o peito”, como quem ainda tinha mais chão pela frente. Em um tempo de menos recursos tecnológicos, o álbum aposta na honestidade da voz e da letra.

Recepção crítica e impacto cultural

Como muitos discos de estreia independentes, Leandro & Leonardo não teve ampla cobertura crítica em revistas nacionais da época. Em bases modernas de avaliação, aparece como “NR” (sem nota), com baixa visibilidade entre especialistas.

Ainda assim, seu impacto cultural está mais no símbolo do que nos números: foi esse álbum que permitiu à dupla se apresentar em outros palcos, conquistar público local e, mais tarde, atrair gravadoras que possibilitariam seus sucessos futuros.

Quando comparamos com álbuns posteriores — como Explosão de Desejos (1986), que vendeu cerca de 150 mil unidades — vemos uma progressão clara. Ou ainda com o famoso Leandro & Leonardo Vol. 4 (1990), que vendeu mais de 3 milhões de cópias e trouxe hits como “Pense em Mim” e “Desculpe, Mas Eu Vou Chorar” — o contraste é grande: de um começo modesto para um fenômeno nacional.

Culturalmente, o disco inicial tornou-se um marco afetivo: muitos fãs consideram-no raro, quase mítico, e guardam cópias antigas como relíquias. Ele simboliza a raiz — o momento em que duas vozes humildes começaram a trilhar seu caminho até o estrelato nacional.

Curiosidades e bastidores sobre a produção ou gravação

  • O álbum foi gravado com recursos próprios e apoio de amigos, sem o suporte de grandes gravadoras.
  • A tiragem era pequena, e o disco era vendido diretamente nos bares onde a dupla se apresentava, muitas vezes de mão em mão.
  • A dupla, em entrevistas posteriores, admitiu que considerava esse primeiro disco “ruim” do ponto de vista técnico, chegando a esconder exemplares como quem faz um álbum de aprendizado.
  • Em livros de biografia, há menção de que esse álbum foi um elemento de autopromoção: mostravam-no a gravadoras em São Paulo em busca de contrato.
  • Algumas reedições e registros em plataformas digitais trazem versões remasterizadas ou scans de capas antigas, valorizando o álbum para colecionadores.

Legado desse álbum e sua importância

Mais do que um simples registro de estreia, Leandro & Leonardo (1983/84) é um retrato fiel da coragem e da fé de dois irmãos que decidiram apostar tudo em um sonho. O disco carrega, em sua essência, as sementes do que viria a florescer anos depois: as harmonias inconfundíveis, o romantismo apaixonado, as histórias de amor e desilusão, e a autenticidade sertaneja que marcariam a dupla para sempre.

Mesmo limitado por recursos técnicos e pela distribuição artesanal, o álbum cumpriu um papel crucial — foi a porta de entrada para um caminho de sucesso que culminaria em canções imortais como “Pense em Mim” e em uma carreira que ultrapassou a marca de 17 milhões de discos vendidos.

Para os fãs, ele é uma relíquia sentimental; para quem estuda música popular brasileira, é um exemplo inspirador de persistência e talento. Seu verdadeiro valor não está na produção simples, mas na alma que transborda em cada faixa — o testemunho de uma dupla que acreditou em seu próprio som muito antes de conquistar o país inteiro.

FAIXAS

01 - A Construção
02 - O Sono Não Chegou
03 - Lua de Mel
04 - Dupla Traição
05 - Revolta
06 - Meu Querido Pai
07 - Trauma do Amor
08 - Coração Rebelde
09 - Hoje Acordei Chorando
10 - Minha Cruz
11 - Esta Noite
12 - Não Sou Homem de Coleção

domingo, 7 de janeiro de 2018

Carminho - Carminho Canta Tom Jobim

Quando o Fado Abraça a Bossa: “Carminho Canta Tom Jobim” e o delicado encontro entre dois mundos musicais

Em tempos de convergências culturais e fronteiras que se dissolvem pela música, Carminho Canta Tom Jobim surge como um tratado sensível e ousado desse diálogo entre Portugal e Brasil. Ao revisitar o repertório de um dos maiores compositores da música brasileira sob seu olhar fadista, Carminho lança no mundo um álbum que é, ao mesmo tempo, homenagem, reinvenção e ponte afetiva. Lançado em dezembro de 2016, ele não é uma simples coletânea de versões — é um ato de fé e amor musical.

Contexto e momento do lançamento

Antes de mais nada, é importante destacar que esse projeto não surgiu no vácuo. Carminho já vinha construindo uma carreira sólida no fado contemporâneo, com discos bem recebidos e reconhecimentos crescentes. Em 2016, quando lançou este álbum, ela já tinha um público fidelizado em Portugal e uma crescente curiosidade fora dos seus domínios.

O convite, segundo relatos da própria artista, veio da viúva de Tom Jobim (Ana Jobim) e teve o aval da família do maestro. A exigência era clara: que o projeto fosse musicalmente respeitoso ao legado jobiniano, mas também que permitisse a Carminho expressar seu universo interpretativo. Para isso, ela conta com ninguém menos do que a antiga “Banda Nova” — Paulo Jobim (violão e direção musical), Daniel Jobim (piano), Jaques Morelenbaum (violoncelo) e Paulo Braga (bateria) — o grupo que acompanhou Tom Jobim nos seus últimos anos de carreira.

Quando chegou ao mercado português, o álbum atingiu o topo das paradas da Associação Fonográfica Portuguesa e foi certificado como disco de platina. A recepção crítica também foi geralmente favorável — por exemplo, a revista UKVibe deu nota 4/5, destacando que o projeto funciona como uma “carta de amor musical” a Jobim.


Um pouco de história (ou “o caminho até aqui”)

Carminho — cujo nome completo é Maria do Carmo de Carvalho Rebelo de Andrade — nasceu em Lisboa, em 1984, filha de mãe cantora de fado (Teresa Siqueira). Desde cedo teve contato com a música tradicional portuguesa, mas foi ao longo de sua trajetória artística que expandiu fronteiras, flertando com influências brasileiras e internacionais.

Antes de Carminho Canta Tom Jobim, vieram álbuns como Fado (2009), Alma (2012) e Canto (2014). O disco Canto, por exemplo, reafirmou sua maturidade interpretativa e sua capacidade de renovar o fado com arranjos contemporâneos. Assim, o projeto com Jobim surge como um passo ousado e natural na carreira de Carminho — buscar “um outro lado da língua portuguesa”, explorando essa sonoridade transatlântica.

Análise faixa a faixa (ou destaques indispensáveis)

O álbum tem 14 faixas, quase um “best of” de Jobim, mas com escolhas bem pensadas e duos que acentuam o diálogo entre Brasil e Portugal. Aqui vão alguns destaques que ajudam entender sua alma:

  • “A Felicidade” – Uma abertura certeira: Carminho assume desde o primeiro instante o tom melancólico da canção, numa marca de encontro entre fado e bossa.
  • “O Que Tinha De Ser” – A voz de Carminho revela as nuances do destino amoroso contido na letra, com acompanhamento discreto.
  • “Estrada do Sol” (dueto com Marisa Monte) – Um dos momentos mais celebrados do álbum: há cumplicidade vocal e arranjo que passeia entre Brasil e Portugal com elegância.
  • “Falando de Amor” (dueto com Chico Buarque) – Traz o peso da poesia de Chico e o lado íntimo de Carminho, equilibrando contenção e emoção.
  • “Sabiá” (com Fernanda Montenegro recitando) – Um trecho recitado por Fernanda Montenegro (versos de A Canção do Exílio) abre a faixa, criando uma ponte literária e simbólica entre as nações lusófonas.
  • “Modinha” (com Maria Bethânia) – Um momento de intensidade dramática: Maria Bethânia empresta sua gravidade à introdução, e Carminho domina o restante.
  • “Wave” – Um dos clássicos mais reverenciados de Jobim, que ganha uma interpretação mais contemplativa e introspectiva sob a voz de Carminho.
  • “Triste”, “O Grande Amor”, “Inútil Paisagem”, “Retrato Em Branco e Preto” — cada uma dessas canções revela uma faceta: a dor da saudade, a leveza do amor, paisagens emocionais e a grandiosidade melódica de Jobim reimaginada pelo viés fadista.

Por fim, a faixa “Don’t Ever Go Away” é a única que traz uma versão em inglês/português (versão híbrida) e remete ao clássico Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim. É também uma ponte literal entre línguas e sonoridades.

Não é exagero dizer que Carminho reinterpreta esses monumentos da MPB como se os estivesse descobrindo — e, ao mesmo tempo, resgatando algo latente.

Estilo, influências e inovações

Este álbum é — acima de tudo — um exercício de transfusão estética: como levar o tempero melódico e harmônico da bossa nova para o universo emocional e expressivo do fado, sem diluir os dois?

  • Estilo e timbre: Carminho mantém seu tom grave, emotivo e “fado na carne”, mas suaviza pontos para dialogar com a leveza inerente das canções de Jobim. O sotaque português aparece com naturalidade — ela não tenta “brasiliancar” as canções, e isso dá autenticidade ao projeto.
  • Arranjos e instrumentação: Sob direção musical de Paulo Jobim, o álbum aposta em arranjos mais enxutos, intimistas, com piano, violão, cello e bateria leve, evitando orquestrações exuberantes que poderiam ofuscar a voz ou tornar o disco pomposo demais.
  • Inovações e riscos: A “inovação” não está em reinventar radicalmente Jobim, mas em reescrever algumas nuances — pausas, respirações, silêncios — com o espírito do fado. Além disso, a escolha de duetos (Marisa Monte, Chico Buarque, Maria Bethânia) e a presença de recitação literária (Fernanda Montenegro) adicionam camadas simbólicas e afetivas ao disco.
  • Diálogo cultural: Em muitos sentidos, o álbum revela o que já se suspeita: que lusofonia musical é um terreno fértil. Carminho “viaja” ao Brasil sem perder sua identidade portuguesa — e, de fato, contribui para essa conexão musical transatlântica.

Recepção crítica e impacto cultural

A crítica, de modo geral, o saudou como um projeto ambicioso e bem-sucedido. O Correio Braziliense destacou que o disco “ganhou aprovação da crítica e conquistou os ouvidos de brasileiros e portugueses”. A UKVibe chamou de “carta de amor musical” e elogiou a adequação entre Carminho e a sonoridade de Jobim.

Em Portugal, a revista Visão enxergou no disco uma “questão de Tom” — ou seja, o desafio de casar o universo bossa-novístico com o fado, e entender que a estranheza inicial pode dar lugar a afetos sonoros. A crítica portuguesa notou que Carminho é mais eficaz quando se afasta do registro stricto do fado e se entrega a esse mar de melodias abertas.

No âmbito de sua discografia, o álbum se destaca como um momento de ousadia e visibilidade internacional. Comparado com Canto (2014), que assegurou sua afirmação no fado contemporâneo, Carminho Canta Tom Jobim amplia horizontes e coloca Carminho em conversa direta com uma das maiores linhagens musicais brasileiras. Depois dele, seu álbum Maria (2018) opta por um recuo mais íntimo e autoral, mostrando que esse momento Jobim foi também ponto de inflexão e reflexão em sua trajetória.

Culturalmente, o disco reforça a ideia de que Brasil e Portugal não são apenas “países irmãos de língua”, mas parceiros criativos em constante renovação. Ele alimentou debates sobre apropriação, identidade sonora e como a música atravessa fronteiras emocionais mais do que geográficas.

Curiosidades & bastidores

  1. Seleção criteriosa: Carminho teve acesso a uma biblioteca de mais de 200 canções de Tom Jobim disponibilizada pela família para escolher o repertório do álbum.
  2. Banda que “sabe o caminho”: Os músicos que acompanharam Carminho pertencem à antiga Banda Nova — ou seja, acompanharam Jobim em vida e trazem intimidade sonora com essas músicas.
  3. O dilema das palavras “pt-br vs pt-pt”: Carminho evitou gravar certas canções com termos que “soariam estranho” em português de Portugal. Por exemplo, ela considerou não incluir “Por Causa de Você” exatamente por causa dessa diferença linguística.
  4. Momento recitado: Em “Sabiá”, a atriz Fernanda Montenegro recita versos do poema A Canção do Exílio (Gonçalves Dias), entrelaçando poesia brasileira e lusófona no álbum.
  5. Versão híbrida: “Don’t Ever Go Away” não é inteiramente em português — há partes em inglês, remetendo ao famoso disco de Jobim com Sinatra, e simbolizando a universalidade da música do maestro.

O legado de “Carminho Canta Tom Jobim”

Esse álbum é uma peça rara: nem puramente homenageador, nem autoral em sentido estrito — ele ocupa um terreno de mediação afetiva e musical. Nele, Carminho reafirma que interpretar não é servir de espelho lírico: ela faz do repertório um território de (re)criação.

Carminho Canta Tom Jobim permanece como um dos marcos mais ousados da discografia da artista — um ponto de confluência entre o fado mais íntimo e a bossa mais sofisticada. Seu legado está em nos lembrar que a música capaz de atravessar oceanos (e tempos) é aquela que aceita as diferenças e as transforma em diálogo. Para ouvintes de Portugal, Brasil ou qualquer lugar onde se fale — e se escute — português, este álbum oferece uma escuta renovada sobre a universalidade da obra de Jobim e a força interpretativa do fado.

 

FAIXAS

Carminho Canta Tom Jobim

01. A Felicidade
02. O Que Tinha de Ser
03. Estrada do Sol feat. Marisa Monte
04. Meditação
05. Luiza
06. Falando De Amor feat. Chico Buarque
07. Wave
08. Sabiá
09. O Grande Amor
10. Retrato Em Branco e Preto
11. Inutil Paisagem
12. Triste
13. Modinha feat. Maria Bethânia
14. Don't Ever Go Away

domingo, 9 de abril de 2017

Summer Eletrohits 2017


Imagine seu verão embalado por uma coletânea que mistura os maiores hits eletrônicos do momento. Não é sobre uma banda, mas sobre o Summer Eletrohits 2017, uma coletânea lançada no Brasil que reuniu sucessos internacionais e nacionais para embalar pistas, festas e road trips. Com nomes como The Chainsmokers, Martin Garrix, Jonas Blue e Hardwell, esse álbum se tornou referência do verão eletrônico em 2017.

Breve histórico até o lançamento
A série Summer Eletrohits, lançada pelo selo Som Livre no Brasil, ganhou fama por compilar os hits mais tocados nas rádios e boates. Antes de 2017, coleções anteriores já consolidavam uma fórmula certeira: mega hits no começo, seguidos por faixas menos populares, mas úteis para completar uma hora de energia de pista.

Em 2017, a coletânea trouxe faixas internacionais no auge da popularidade, como "Don't Let Me Down" e "In the Name of Love", refletindo a crescente penetração da EDM no Brasil.

Destaques
Mesmo sendo de artistas variados, algumas músicas concentram a identidade da coletânea:
"Don't Let Me Down" – The Chainsmokers feat. Daya
A abertura potente: batidas sintetizadas, refrão poderoso e a voz de Daya grudando na memória. Era um dos maiores hits globais do ano.
"In the Name of Love" – Martin Garrix feat. Bebe Rexha
A combinação perfeita de drop emocional e uma performance vocal marcante de Bebe Rexha: tornou-se um hino das pistas.
"Perfect Strangers" – Jonas Blue feat. JP Cooper
Traduzia a vibe tropical-house com melodia suave e refrão melancólico que ainda embala playlists de nostalgia.
"Give It All Up" – WAO feat. Mikkel Solnado
Representava a onda nacional-europeia emergente: batida dançante com um vocal masculino mais suave e melódico.
"Young Again" – Hardwell feat. Chris Jones
Apelo festivaliero: sintetizadores épicos, construção crescente e queda explosiva, ideal para o público que curte EDM enérgica.
Outros destaques: “Paradise” (Benny Benassi & Chris Brown), “7 Years” (Kiwi Bird), “Fast Car” (NLKD) — todas presentes como marcos da diversidade do electro pop comercial.

Estilo musical, influências e inovação
A coletânea traz um mix de EDM mainstream, tropical house, progressive house e electro pop. Influências vão de David Guetta e Calvin Harris até artistas brasileiros que ganhavam espaço, como WAO e D.I.B. O diferencial estava na curadoria: combinar grandes hits com nomes emergentes e versões mais “acessíveis” ao público brasileiro, inclusive com vocais em inglês fáceis de cantar junto.

Embora não tenha inovações radicais (é uma coleção de sucessos), a inovação está na seleção inteligente: os primeiros faixas são impactantes, enquanto o meio/sobra ajudava a manter a energia, mesmo que, segundo fãs, sem o mesmo brilho.

Recepção da crítica e impacto cultural
Crítica brasileira à época era escassa — coletâneas raramente ganham reviews formais. Mas o impacto nas redes e rádios foi evidente: o disco figurou entre os CDs mais vendidos do verão (chegou a esgotar em lojas como Gringos Records por cerca de R$ 30).

Comparando com edições anteriores, o volume 2017 manteve a tradição: faixas no início que viraram hits, seguidas por remixes ou faixas menos marcantes — uma fórmula criticada por uns, amada por outros pela nostalgia.

Curiosidades e bastidores
A coletânea foi vendida fisicamente em CD no Brasil, em lojas como Gringos Records, e até chegou a esgotar rapidamente 

Apesar do foco internacional, entrou música de produtores e DJs nacionais emergentes — como WAO e D.I.B — que já despontavam na cena eletrônica brasileira.

A composição da tracklist parece intencionalmente inclinada ao consumo rápido: os melhores hits no começo, faixas de "enchimento" no fim, estratégia comum para coletâneas comerciais no Brasil 

Legado do álbum
Summer Eletrohits 2017 não é um álbum de banda, mas sim um retrato sonoro do verão brasileiro de 2017. Foi parte importante para quem vivia a festa eletrônica naquela época: trouxe o mainstream global para playlists e CDs domésticos. Seu legado está na nostalgia — muitas pessoas ainda lembram das faixas com saudade ou as redescobrem em playlists no Spotify. Comparado a outros volumes, o 2017 manteve os primeiros hits fortes, ainda que perdesse fôlego nas faixas finais, mas mesmo assim cumpriu seu objetivo: capturar o clima do verão eletrônico para o público brasileiro.


Faixas

01 - Don'T Let Me Down - The Chainsmokers Feat Daya
02 -     In The Name Of Love - Martin Garrix Feat Bebe Rexha
03 - Perfect Strangers - Jonas Blue Feat Jp Cooper
04 - Give It All Up - Wao Feat Mikkel Solnado
05 - Young Again - Hardwell Feat Chris Jones
06 - Paradise - Benny Benassi & Chris Brown
07 - 7 Years - Kiwi Bird
08 - The Ocean - Mike Perry Feat Shy Martin
09 - Fast Car - Nlkd
10 - She Knows - Elekfantz
11 - Here Without You - The Squadz
12 - Nightlife - D.I.B Feat Nathan Brumley
13 - Turn It Up - Naza Brothers
14 - Troy - Ftampa & Wao

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Raquel Tavares - 2016 Raquel


Um regresso que não é volta no tempo
Quando Raquel Tavares lançou Raquel em 2016, não foi um disco de “retorno à casa”. Foi antes a fotografia de uma artista que, depois de anos a cantar e a viajar, decidiu gravar um álbum que coubesse no seu repertório de fadista mas também nas suas novas inquietações por MPB, samba e canção popular. O resultado é um disco curto, íntimo e bem cuidado — 11 faixas, cerca de 36 minutos — que mostrou uma Raquel mais expansiva, sem perder a pura sinceridade do fado. 

Breve histórico até Raquel
Raquel Tavares é uma das vozes mais reconhecíveis da geração pós-Amália: venceu a competição Grande Noite do Fado ainda criança e, em 2006, o seu disco homónimo valeu-lhe o Prémio Amália Rodrigues na categoria Revelação Feminina — um passo que consolidou uma carreira construída em casas de fado e palcos internacionais. Entre 2008 e 2016 houve tempo para crescer, experimentar e cantar em contextos além do fado estrito; Raquel materializa essa maturidade. 

Faixas e destaques
O alinhamento oficial de Raquel aposta na economia emocional: canções curtas, melodias diretas e arranjos que privilegiam a voz. Entre as faixas estão “Deste-me um Beijo e Vivi”, “Meu Amor de Longe”, “Não Me Esperes de Volta”, “Limão”, “Regras de Sensatez”, “Tradição”, “Eu Já Não Sei”, “Rapaz da Camisola Verde”, “Para o Destino”, “Gostar de Quem Gosta de Nós” e “Coração Vagabundo” — lista que consta nas edições do álbum. 


“Deste-me um Beijo e Vivi” abre com timbres contidos; a produção deixa a voz respirar, criando proximidade.

“Meu Amor de Longe” funciona como um hit de catálogo: refrão memorável, sentimento de “fado contemporâneo” que dialoga com a canção popular.

“Não Me Esperes de Volta” e “Limão” são exemplos de como Raquel transforma letras de perda em pequenas lâmpadas de luz — interpretação contida, mas intensa.

“Regras de Sensatez”, com guitarra acústica assinada por Rui Veloso, e “Não Me Esperes de Volta”, com harmónica de António Serrano, trazem colaborações que enriquecem sem tirar a natureza fadista das canções. 


Estilo, influências e inovação
O que faz Raquel interessante é o equilíbrio: não é um disco que abandona o fado, mas um trabalho que o coloca lado a lado com outras sonoridades lusófonas — do samba leve à MPB passante — e com intervenções pontuais de músicos de universos próximos (Rui Massena, Carlão, Rui Veloso aparecem como convidados). A produção opta por clareza e espaço, permitindo que a tradição (saudade, fraseado) conviva com texturas contemporâneas. 


Recepção crítica e impacto cultural
A imprensa portuguesa recebeu o disco como um regresso bem-sucedido: Raquel entrou nas tabelas em 2016 e consolidou a presença da fadista em palcos mais amplos. Em termos práticos, 2016 marcou também a presença de Raquel em cartazes de festivais — entre eles o NOS Alive, onde atuou no espaço EDP Fado Café — um sinal de que o seu público se alargou para além das casas de fado. 


Comparado com Bairro (2008), mais centrado num fado clássico e nas casas, Raquel é um disco de estação intermédia: menos “clássico de casa de fado” e mais ponte de conversas com outras músicas de expressão lusófona. Essa abertura preparou, aliás, o caminho para o projeto seguinte: o álbum-tributo Roberto Carlos por Raquel Tavares (2017), que alcançou grande visibilidade e certificação de ouro em Portugal. 


Curiosidades e bastidores
As edições do disco incluem participações relevantes: Carlão e Rui Massena aparecem como convidados, Rui Veloso toca guitarra acústica em “Regras de Sensatez” e António Serrano assina a harmónica em “Não Me Esperes de Volta”. A escolha das colaborações foi pensada para reforçar o diálogo entre fado e outras linguagens. 
A apresentação oficial teve momentos no Centro Cultural de Belém e em salas portuguesas importantes — a divulgação privilegiou concertos ao vivo, onde o álbum ganhou corpo. 


Por que Raquel importa?
Raquel é um disco de claridade e de escolha: em vez de multiplicar ornamentos, Raquel Tavares optou por filtrar e deixar a voz no centro. O álbum funciona hoje como um marco: mostra como uma fadista contemporânea pode respeitar as raízes e, simultaneamente, abrir janelas para o mundo. Para quem ama fado, é um convite; para quem não conhece Raquel, é uma porta de entrada suave — íntima, austera e, por isso, verdadeiramente afetiva.

Faixas
01. Deste-Me Um Beijo E Vivi
02. Meu Amor De Longe
03. Não Me Esperes De Volta
04. Limão
05. Regras De Sensatez
06. Tradição
07. Eu Já Não Sei
08. Rapaz Da Camisola Verde
09. Para O Destino
10. Gostar De Quem Gosta De Nós
11. Coração Vagabundo

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Zé Ramalho - 1981 A Terceira Lâmina



No início dos anos 80, Zé Ramalho já era um nome consolidado na MPB, graças aos álbuns Zé Ramalho (1978) e A Peleja do Diabo com o Dono do Céu (1979), que mesclavam ritmos nordestinos com letras carregadas de misticismo e crítica social. Em 1981, ele lançou A Terceira Lâmina, considerado sua terceira fase sonora e poética. Produzido por Zé e Mauro Motta, o disco trazia uma sonoridade apocalíptica, com incursões líricas e metáforas que ampliavam seu alcance artístico e popularidade. Vamos embarcar nesse álbum que segue tão atual quanto instigante.

Histórico da carreira até o lançamento
Zé Ramalho surgiu no fim dos anos 70 como uma voz única dentro da MPB. Com raízes no sertão paraibano, sua poesia mesclava cordel, misticismo e uma visão quase apocalíptica do mundo. Seus primeiros discos, especialmente Zé Ramalho (1978) e A Peleja do Diabo com o Dono do Céu (1979), já mostravam essa mistura ousada de baião, forró, rock e folk psicodélico. Quando chega A Terceira Lâmina, o artista já era um nome consolidado e respeitado, mas buscava novos caminhos para expressar sua visão de mundo.

Análise das principais faixas
Aqui vão destaques que revelam a alma do disco:
Canção Agalopada - A abertura é um poema musicalizado extraído de seu livro Apocalipse (1977), com base nas formas tradicionais nordestinas “martelo agalopado” e “galope à beira-mar”. A participação da soprano Maria Lúcia Godoy traz um contraste lírico e dramático com a voz rouca de Zé Ramalho. Um convite imediato ao universo criativo do álbum.
Filhos de Ícaro - Uma faixa curta (cerca de 3 minutos), com tom profético e metáforas sobre ambição e queda. O samba pesado que acompanha a letra reforça a atmosfera de alerta social, amarrado à estética apocalíptica do disco.
A Terceira Lâmina - Segundo Zé, a canção aborda “o terceiro filho, a terceira fase” e uma visão de uma terceira guerra mundial interior e exterior. Musica-se sobre um baião pulsante, com arranjos de metais e sanfona que evocam resistência e libertação.
Um Pequeno Xote - A sanfona de Severo do Acordeom destaca-se com sutileza, criando uma atmosfera íntima, leve, que contrasta com as cores mais densas do álbum.
Atrás do Balcão - Um olhar poético sobre a rotina invisível dos trabalhadores de bar. A letra funciona como micro-reportagem social, com tom empático e observacional, reforçando a poeticidade cotidiana de Zé.
Galope Rasante - Ritmo forte, percussão marcante e uso de metais (incluindo sax de Léo Gandelman segundo análises contemporâneas), dão à faixa uma energia propulsora, quase cinematográfica.
Kamikaze e Violar - “Kamikaze” emociona pela letra sobre entrega e sacrifício, acompanhada de flauta delicada. Em seguida, “Violar” é um tema instrumental curto, quase etéreo, em que Zé mostra sua habilidade na viola, solo de técnica e sensibilidade.
Cavalos do Cão, Ave de Prata e Dia dos Adultos
A participação de Elba Ramalho em “Cavalos do Cão” cria um duelo vocal intenso, com imagem de cavalgadas sertanejas e memória de guerras. “Ave de Prata” é uma balada doce dedicada a Elba, enquanto “Dia dos Adultos” encerra o disco com um frevo rápido e festivo, lembrar de festival da TV Tupi de 1980.

Estilo musical, influências e inovação
A Terceira Lâmina combina ritmos nordestinos — forró, baião, xote, frevo — com elementos do rock e da música clássica (como os vocais líricos de Maria Lúcia Godoy e arranjos de cordas de Miguel Cidras). A inovação está na fusão de poesia, crítica social e estética apocalíptica, com arranjos sofisticados sem perder a raiz popular. Zé continua explorando sua voz profunda sobre texturas instrumentais variadas — desde sanfona, metálicos e percussões até interlúdios sem instrumento (“Violar”).

Recepção da crítica e impacto cultural
Em retrospectiva de 2020, o crítico Mauro Ferreira classificou o álbum como “incisivo”, mas o comparou desfavoravelmente aos dois primeiros trabalhos solo, afirmando que não alcança o mesmo impacto de A Peleja… e Zé Ramalho. Apesar disso, fãs persistem em reconhecer o poder poético de faixas como “Canção Agalopada”, “Galope Rasante” e “Ave de Prata”, fazendo deste álbum uma joia cult dentro da discografia do artista. Nas avaliações populares, o disco é lembrado como “repleto de músicas sem skips”, forte em poesia e instrumentos que exaltam a cultura do Nordeste.
Comparado com A Peleja…, A Terceira Lâmina traz menos hits de massa, mas uma profundidade lírica que se sustenta ao longo dos anos — e prepara terreno para o álbum Força Verde (1982), que aprofundaria a trilogia temática iniciada neste trabalho.

Curiosidades e bastidores
A abertura “Canção Agalopada” nasceu de um poema de Zé Ramalho publicado no livro Apocalipse (1977) e segue a tradição da literatura de cordel com formas rítmicas próprias.
A faixa-título reflete simbolicamente a “terceira cria”, ou terceira fase do artista, além de referências a uma guerra mundial emocional interna e coletiva.
A produção foi feita nos Estúdios Sigla em janeiro de 1981, com Zé e Mauro Motta no comando.

Legado e importância
Embora não tenha o mesmo apelo comercial dos dois primeiros álbuns solo de Zé Ramalho, A Terceira Lâmina permanece como um trabalho essencialíssimo para fãs e estudiosos da MPB. Ele marca uma evolução poética e sonora: arranjos refinados, metáforas literárias e uma amalgama de gêneros que ampliam o repertório do artista além dos hits consagrados. A forma como conecta narrativa, crítica social e tradição nordestina dá ao disco status de cult — e o coloca como uma ponte para o próximo passo da trajetória: Força Verde.
Ao revisitar A Terceira Lâmina, percebemos a maturidade de Zé em expressar crises coletivas e individuais com linguagem popular e sofisticada ao mesmo tempo. Um disco para se ouvir com atenção, alma e o coração aberto.


Faixas
01 - Canção agalopada
02 - Filhos de Ícaro
03 - A terceira lâmina
04 - Um pequeno xote
05 - Atrás do balcão
06 - Galope rasante
07 - Kamikaze
08 - Violar
09 - Cavalos do cão
10 - Ave de prata
11 - Dia dos adultos

domingo, 12 de fevereiro de 2017

A Peleja do Diabo com o dono do Céu - Zé Ramalho


Poucos artistas na música brasileira conseguiram traduzir a alma do sertão e a pulsação mística do país como Zé Ramalho. No final da década de 1970, em meio a um Brasil mergulhado em transformações sociais e políticas, ele lançou um disco que viria a se tornar um marco definitivo em sua carreira: A Peleja do Diabo com o Dono do Céu (1979).
Se seu primeiro álbum já havia apresentado um compositor de timbre inconfundível e poesia visionária, foi nesse segundo trabalho que Zé consolidou sua identidade artística, misturando cordel, rock, baião e psicodelia em uma narrativa ousada e arrebatadora. Este não foi apenas um álbum, mas um verdadeiro duelo sonoro entre o popular e o universal, o profano e o sagrado.

Breve histórico até o lançamento
Antes de chegar a esse momento, Zé Ramalho havia construído sua reputação nos palcos do Nordeste e em festivais, trazendo na bagagem a influência de Luiz Gonzaga, Bob Dylan, Jackson do Pandeiro e Pink Floyd. Seu disco de estreia, homônimo, em 1978, foi um sucesso inesperado, alavancado por canções como “Avôhai”, que abriram as portas para a crítica e o público.
A pressão para o segundo trabalho era imensa. Zé, no entanto, não se intimidou: mergulhou fundo em sua veia lírica nordestina, trazendo referências bíblicas, elementos do folclore e uma ousadia rítmica que colocava sanfona e guitarra elétrica lado a lado.

Faixas em destaque: a narrativa de um duelo cósmico
O álbum possui 10 faixas, todas atravessadas por uma energia quase teatral. Vale destacar algumas joias desse repertório:
Admirável Gado Novo - Talvez a música mais icônica de sua carreira, é uma crítica feroz às massas manipuladas, às repetições do cotidiano e ao conformismo social. O refrão virou símbolo de resistência e até hoje ecoa em manifestações e documentários.
Frevo Mulher - Um hino pulsante, que mistura sensualidade e ritmo carnavalesco. Com versos fortes e melodia contagiante, a canção se tornou um clássico instantâneo e uma das mais regravadas da obra de Zé.
Jardim das Acácias - Aqui, o artista explora uma atmosfera mística e contemplativa, criando imagens poéticas que misturam o sertão e o espiritual.
Agônico - Carregada de dramaticidade, a faixa traduz o lado mais sombrio da “peleja”, trazendo um vocal intenso que beira a catarse.
Beira-Mar - Outra canção emblemática, que depois ganharia desdobramentos em discos posteriores do cantor. É uma narrativa épica, que mistura tragédia pessoal e metáfora social.
Cada faixa, à sua maneira, constrói o mosaico de um sertão mítico, onde personagens reais e imaginários se enfrentam em uma batalha simbólica.

Estilo musical, influências e inovação
O grande trunfo de A Peleja do Diabo com o Dono do Céu é sua ousadia estética. Zé Ramalho não se limitou a reproduzir tradições do Nordeste: ele as fundiu com elementos do rock progressivo, da psicodelia e até da música folk internacional.
O disco é, ao mesmo tempo, profundamente brasileiro e universal. Há ecos de Bob Dylan na narrativa lírica, de Pink Floyd nas atmosferas sonoras, e de Luiz Gonzaga no uso do baião e da sanfona. Essa mistura resultou em um som atemporal, que influenciou gerações seguintes de artistas nordestinos e da MPB.

Recepção da crítica e impacto cultural
No lançamento, em 1979, o disco foi recebido com entusiasmo pela crítica, que destacou a ousadia lírica e a força das composições. “Admirável Gado Novo” rapidamente ganhou status de clássico e, nos anos 1990, foi reintroduzida a uma nova geração ao ser incluída na trilha da novela O Rei do Gado.
Comparado ao álbum de estreia, A Peleja do Diabo... mostrou um Zé Ramalho mais confiante, expandindo seu universo poético. A crítica o reconheceu como um dos grandes nomes da nova música nordestina, ao lado de Alceu Valença, Geraldo Azevedo e Elba Ramalho, que juntos ajudavam a renovar a MPB naquele período.
Culturalmente, o álbum marcou por ser um dos primeiros a trazer para o centro do mercado fonográfico um discurso crítico e popular vindo do sertão, sem abrir mão de apelo comercial.

Curiosidades e bastidores
O título do disco é inspirado na tradição dos folhetos de cordel, em que duelos entre figuras míticas eram narrados em versos rimados.
“Frevo Mulher” foi composta originalmente para Elba Ramalho, prima de Zé, mas acabou entrando no disco do cantor antes de ser gravada por ela.
A capa do álbum, cheia de simbolismos, reforça a ideia do confronto cósmico entre forças antagônicas, traduzindo visualmente o espírito do trabalho.
O sucesso de “Admirável Gado Novo” foi tão grande que a música acabou sendo quase um hino involuntário das Diretas Já na década seguinte.

O legado de uma peleja eterna
Mais de quatro décadas após seu lançamento, A Peleja do Diabo com o Dono do Céu segue como um dos discos mais importantes da música brasileira. É uma obra que prova como Zé Ramalho soube transformar o regional em universal, sem perder a essência de sua raiz nordestina.
Se o primeiro álbum o apresentou como promessa, este segundo o consolidou como um dos maiores poetas da canção brasileira. Ainda hoje, suas faixas ressoam em festivais, playlists e nos corações de quem encontra, nas metáforas de Zé, a tradução da luta cotidiana entre esperança e desencanto.


Faixas

01 - A Peleja do diabo com o Dono do Céu
02 - Admirável Gado Novo
03 - Falas do Povo
04 - Beira-Mar
05 - Garoto de Aluguel (Taxi Boy)
06 - Pelo Vinho e Pelo Pão
07 - Mote das Amplidões
08 - Jardim das Acácias
09 - Agônico
10 - Frevo Mulher

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Zé Ramalho (1978) - Zé Ramalho




Em 1978, o Brasil vivia uma ebulição cultural em meio à ditadura militar. A música popular brasileira estava se reinventando, com nomes como Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso já estabelecidos, enquanto novos artistas surgiam para romper barreiras sonoras e poéticas. É nesse contexto que Zé Ramalho, um paraibano de voz grave e aura mística, lança seu primeiro álbum homônimo, simplesmente intitulado Zé Ramalho. Mais que uma estreia, o disco é um manifesto musical: mistura poesia de cordel, ritmos nordestinos, influências do rock progressivo e uma atmosfera quase apocalíptica.
Esse álbum de 1978 não apenas apresentou Zé Ramalho ao grande público, como também cravou seu nome na história da música brasileira, tornando-o uma das vozes mais originais e inconfundíveis da nossa MPB.

O caminho até o primeiro álbum
Antes da consagração nacional, Zé Ramalho já havia experimentado a cena musical do Nordeste nos anos 70. Ele participou do disco Paêbiru: Caminho da Montanha do Sol (1975), parceria com Lula Côrtes, que se tornou uma das obras mais cultuadas da psicodelia brasileira. Aquela experiência deixou clara a inclinação de Zé para sonoridades experimentais, com letras que mesclavam misticismo, crítica social e paisagens sertanejas.
Quando decidiu lançar seu primeiro trabalho solo, Zé Ramalho trouxe consigo toda essa bagagem: o espírito do sertão, a influência do rock progressivo inglês (Pink Floyd, Yes), a literatura de cordel e um lirismo sombrio que contrastava com a MPB mais solar que predominava na época.

Faixa a faixa: um mergulho no universo de Zé Ramalho
O álbum Zé Ramalho é composto por 10 faixas, cada uma carregada de simbolismo e força poética.
Avôhai - O hino absoluto da carreira de Zé. A canção surgiu após uma experiência psicodélica em que o artista teria tido uma visão de seu avô. A letra é um épico nordestino, cheio de imagens cósmicas e espirituais. O arranjo com violões e sintetizadores cria um clima etéreo, marcando de vez a singularidade de sua obra.
Vila do Sossego - Outro clássico, que se tornou sucesso radiofônico. Aqui, Zé canta sobre um lugar utópico, de paz e liberdade, em contraste com a repressão política do período. A melodia simples e contagiante fez a canção atravessar gerações, ainda hoje sendo uma das mais lembradas de sua carreira.
Chão de Giz - Uma das mais belas composições românticas da música brasileira. Com versos como “Eu desço dessa solidão e espalho coisas sobre um chão de giz”, Zé mistura imagens poéticas com um lirismo melancólico. É a música que mais mostra sua faceta de trovador apaixonado.
A Noite Preta - Aqui, o clima é mais sombrio, refletindo o misticismo e o tom apocalíptico presentes em várias canções de Zé Ramalho. O arranjo lembra o rock progressivo, com guitarras marcantes e atmosferas densas.
O álbum ainda traz outras joias, como A Dança das Borboletas, Adeus Segunda-feira Cinzenta e Bicho de 7 Cabeças, todas reforçando a pluralidade temática e musical de sua estreia.

Estilo musical, influências e inovação
O disco Zé Ramalho não se encaixa facilmente em rótulos. Ele é ao mesmo tempo MPB, rock progressivo, psicodelia, forró e poesia de cordel. A voz grave e declamatória de Zé, combinada com arranjos modernos para a época, criou uma sonoridade única, que alguns críticos chamam de “folk nordestino psicodélico”.
As letras, cheias de símbolos, metáforas e imagens místicas, dialogam tanto com o sertão quanto com o imaginário universal. Zé Ramalho foi influenciado por Bob Dylan, Raul Seixas, Pink Floyd e pela literatura de cordel nordestina, criando um amálgama que até hoje é difícil de reproduzir.

Recepção e impacto cultural
Na época do lançamento, Zé Ramalho recebeu elogios da crítica por sua originalidade, mas também causou estranhamento: havia quem não soubesse como classificar aquele artista de voz grave, letras enigmáticas e arranjos que fugiam ao padrão. No entanto, o público abraçou o disco, principalmente com os sucessos Avôhai, Vila do Sossego e Chão de Giz, que rapidamente ganharam espaço nas rádios.
Comparado aos álbuns posteriores de Zé, como A Peleja do Diabo com o Dono do Céu (1979) e A Terceira Lâmina (1981), sua estreia soa mais introspectiva, como uma apresentação ao mundo de seu universo particular. Mas foi justamente essa ousadia que garantiu seu lugar entre os grandes nomes da MPB.

Curiosidades e bastidores
A inspiração para Avôhai teria vindo após uma experiência com alucinógenos, em que Zé Ramalho disse ter recebido uma “visão espiritual” de seu avô.
O álbum foi lançado pela gravadora Epic, com produção de Sérgio Sá, que apostou no talento singular do paraibano.
Muitas das letras já circulavam em shows de Zé antes da gravação, o que ajudou a criar uma base de fãs no Nordeste.
Chão de Giz é até hoje uma das músicas brasileiras mais regravadas em diferentes estilos, do sertanejo ao rock.

O legado de um álbum visionário
Mais de quatro décadas após seu lançamento, o álbum Zé Ramalho continua sendo uma obra essencial para entender a música brasileira. Ele revelou um artista que soube unir tradição e modernidade, sertão e psicodelia, poesia popular e rock progressivo.
Esse disco de estreia não só projetou Zé Ramalho como um dos grandes nomes da MPB, mas também abriu espaço para uma sonoridade nordestina mais ousada e experimental. Até hoje, ao ouvir Avôhai ou Chão de Giz, é impossível não sentir a força visionária que Zé Ramalho trouxe à música brasileira em 1978.

Faixas
1978 Zé Ramalho Reedição de 2003

01 - Avôhai
02 - Vila do Sossego
03 - Chão de Giz
04 - A Noite Preta (Alceu Valença, Zé Ramalho)
05 - A Dança das Borboletas (Alceu Valença, Zé Ramalho)
06 - Bicho de 7 Cabeças (Geraldo Azevedo, Zé Ramalho)
07 - Adeus Segunda-feira Cinzenta (Geraldo Azevedo, Zé Ramalho)
08 - Meninas de Albarã
09 - Voa, Voa

Faixas bônus da reedição de 2003, tocadas apenas no violão com vocal

10 - Avôhai (Voz e Violão – Bônus Track)
11 - Chão de Giz (Voz e Violão – Bônus Track)
12 - Bicho de 7 Cabeças (Geraldo Azevedo, Zé Ramalho) (Voz e Violão – Bônus Track)
13 - Vila do Sossego (Voz e Violão – Bônus Track)
14 - Rato do Porto (Voz e Violão – Bônus Track)

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Troco Likes - Tiago Iorc



Em 10 de julho de 2015, Tiago Iorc lançou seu quarto álbum de estúdio, Troco Likes, um marco na sua trajetória: o primeiro trabalho 100% em português. Até então, Tiago cantava quase exclusivamente em inglês, desde seu primeiro álbum em 2008. Esse álbum representa a transição de uma sonoridade melancólica e introspectiva para uma energia mais solar e reflexiva, ao mesmo tempo em que questiona as redes sociais e a fama instantânea.

Breve histórico até Troco Likes
Tiago Iorc começou compondo em inglês, com fluência estética que lembrava o folk/pop internacional. Albuns como Let Yourself In (2008) e Zeski (2013) construíram sua base de fãs, especialmente com trilhas sonoras de novelas. Seu terceiro álbum, Zeski, já mostrava refinamento, mas ainda longe do Brasil. Foi em Troco Likes que ele se reconectou com sua língua natal, escrevendo letras cheias de verniz poético e refrões incrivelmente cativantes.

Destaques faixa a faixa
O álbum reúne 11 faixas oficiais (mais a bônus em inglês):

Alexandria - abre o disco como um manifesto crítico à voracidade das redes sociais: "queimamos todo dia mil bibliotecas de Alexandria" é verso que choca e cutuca a alma.
Amei Te Ver - segundo single, é um retrato quase cinematográfico da ansiedade e beleza de um primeiro encontro. O clipe com Bruna Marquezine foi um fenômeno viral no YouTube, superando 5 milhões de views em pouco tempo.
Mil Razões - traz uma doçura introspectiva: a ideia de compor cem canções de amor, mas reconhecendo que basta um momento de presença.
Eu Errei - é arrependimento e vulnerabilidade ao violão, lembrando que o tempo não espera e, às vezes, pede perdão.
De Todas as Coisas - evoca um pop nostálgico de FM dos anos 1990, com refrão que embala sonhos e gestos simples.
Coisa Linda - primeiro single, dedilha o violão com leveza e celebra a beleza genuína – composta para Isabelle Drummond, ganhou ar de clássico instantâneo.
Bossa - traz uma virada otimista: aqui, longe das canções de amor,
Iorc se posiciona como cronista dos dilemas da contemporaneidade.
Cataflor - é romântica, quase barroca no uso de cordas, um dos arranjos mais bonitos do disco.
Liberdade ou Solidão - propõe uma reflexão sobre escolha emocional: ser livre ou estar só, com dedilhados que lembram Skank.
Sol Que Faltava - encerra com um refrão solar, ritmo leve que nos convida a viver no agora, sem filtro.
Till I’m Old and Gray (faixa-bônus em inglês) - fecha o álbum num tom sereno, ideal para quem acompanha Iorc desde a fase Zeski – um sonho de envelhecer juntos ao violão.

Estilo musical, influências e inovação
O álbum flutua entre o pop alternativo, folk rock, com pitadas de MPB. A produção (de Tiago Iorc e Alexandre Castilho) é cristalina e minimalista, com foco no violão, arranjos de cordas e refrões melódicos que grudam na cabeça - uma sonoridade que lembra Moska, Marcelo Jeneci e Jesse Harris, mas com uma assinatura estética própria.
A inovação está em transportar essa fluidez folk-pop para o português com autenticidade, sem soar decorativo. O crítica social (em "Alexandria", "Bossa") se mescla ao amor romântico com leveza emocional. É refrescante para o pop brasileiro, ainda dominado por gêneros tradicionais como sertanejo e axé.

Recepção da crítica e impacto cultural
A crítica elogiou o álbum como um “acerto do início ao fim”, resgatando o pop brasileiro sofisticado com simplicidade e elegância. O álbum foi classificado com nota 4.0 pelo Monkeybuzz e ganhou destaques por suas melodias e letras inventivas. Já Album of the Year apontou que o disco mistura folk e rock de forma às vezes confusa, mas com refrões pegajosos.
Ainda mais significativo: Troco Likes foi indicado ao Latin Grammy como Melhor Álbum de Pop Contemporâneo Brasileiro e teve o single “Amei Te Ver” indicado como Melhor Canção em Língua Portuguesa. Ganhou certificação platina no Brasil, com mais de 90 000 cópias vendidas.
Comparado com Zeski (2013), Troco Likes se destaca por sua abertura ao público nacional, pela mudança linguística e pela atitude autoral mais confiante. Já é visto como o ponto de virada da carreira de Iorc para um artista brasileiro de fala e imagem reconhecidas.

Curiosidades e bastidores
O título Troco Likes e a capa ilustrada (por Nestor Canavarro) criticam a cultura de aprovação instantânea nas redes sociais. Iorc aparece forçando um sorriso com prendedores, ironizando a performance social.
Coisa Linda foi escrita para Isabelle Drummond, sua então namorada.
O clipe de Amei Te Ver, com Bruna Marquezine, causou furor ao incluir cenas íntimas e virar um case de viralização midiática.
A turnê Troco Likes incluiu 76 shows pelo Brasil, com estreia no Theatro NET, em São Paulo, e fechou seu ciclo com gravação de um álbum ao vivo lançado em 2016.

Legado e importância
Troco Likes é muito mais que um álbum: foi o ponto de virada na carreira de Tiago Iorc. Sua transição consciente para o português, aliada a melodias viciantes e letras que equilibram romance e crítica social, tornou o disco uma referência do pop contemporâneo brasileiro. O legado permanece vivo: singles como “Coisa Linda” e “Amei Te Ver” viraram hinos de uma geração conectada mas também ávida por sentido. Para Tiago, esse álbum firmou seu lugar não só como cantor internacional fluente, mas como um artista brasileiro verdadeiro, autoral, observador do tempo real e do humano por trás da tela.


Faixas
01 - Alexandria
02 - Amei Te Ver
03 - Mil Razões
04 - Eu Errei
05 - De Todas As Coisas
06 - Coisa Linda
07 - Bossa
08 - Cataflor
09 - Liberdade Ou Solidão
10 - Sol Que Faltava
11 - Till I’M Old And Gray

Let Yourself In - Tiago Iorc


Quando Tiago Iorc lançou seu álbum de estreia Let Yourself In em abril de 2008, era difícil prever o impacto que aquele vozeirão suave e as composições em inglês teriam na cena pop brasileira e internacional. Ainda jovem e desconhecido, o cantor lançou um trabalho delicado e íntimo, que logo se tornaria trilha sonora de novelas, campanhas e descobertas musicais pelo Brasil e pelo exterior. Este artigo explora o álbum com um olhar apaixonado: sua gênese, influências, repertório, impacto e curiosidades.

Histórico antes do álbum

Tiago Iorczeski nasceu em Brasília em 28 de novembro de 1985 e passou parte da infância no exterior (Inglaterra e EUA), o que privilegiou sua fluência em inglês e certa sensibilidade musical precoce. Estudante de publicidade na PUC-PR, ganhou visibilidade ao cantar “Scared” em um festival universitário; logo depois, suas próprias composições, como Nothing But a Song (2007), começaram a integrar trilhas de novelas como Duas Caras e Malhação. Essa trajetória levou à assinatura com a Som Livre e ao primeiro álbum.

Let Yourself In: o álbum de estreia

Lançado oficialmente em 20 de abril de 2008 pelo selo SLAP/Som Livre (com relançamento no Japão em julho de 2009, com capa diferente e faixa bônus) Let Yourself In traz 11 faixas com sonoridade voltada ao pop, soul e jazz leve. Em pouco mais de 41 minutos, Tiago constrói sua identidade sonora como cantor, compositor e arranjador de voz intimista.

Destaques faixa a faixa

No One There - A abertura cria uma atmosfera contemplativa — arranjos minimalistas, voz doce, melodia envolvente. Uma recepção sutil, mas que revela imediatamente seu timbre característico.

Blame - Faixa que ganhou força nas trilhas de novelas como A Favorita (2008–09), ajudando a projetar Tiago ao grande público. Versos confessionais embalados por piano e guitarras modernas, com refrão emocional.

Fine - Até hoje uma das mais lembradas. Apareceu em Malhação (2010) e foi incluída em séries internacionais (Coreia). Ritmo animado, refrão grudento, resulta em balanço POP com leve percussão jazzística.

Nothing But a Song - Single que abriu caminho para o álbum, alcançou o 11º lugar na Billboard Japan Hot 100. Canção simples, porém, poderosa: violão e voz em destaque, carregada de sinceridade.

Scared - Originalmente interpretada em voz cover no início da carreira, aqui ganha versão autoral. Letra sobre medo e incerteza, dosagens bem harmonizadas de melancolia e esperança.

Ticket to Ride” & “My Girl - Regravações de Beatles e Temptations, interpretadas com suavidade e respeito. Trazem um charme retrô-pop, diálogo afetuoso entre a tradição e o novo.

There’s More to Life, It’s Not Time, When All Hope Is Gone - Faixas que trazem densidade lírica e sonoras crescendo em arranjos de piano, contrabaixo e percussão orgânica. A intimidade cresce à medida que o álbum avança.

Versão acústica de Nothing But a Song - Bônus delicado que reforça o poder da voz e da composição sem adornos — o ápice da vulnerabilidade musical.

Estilo musical, influências e inovação
A sonoridade mistura pop despojado, soul suave e pitadas de jazz e rock acústico — dentro de uma produção enxuta mas sofisticada. As influências vão de Nick Drake a Radiohead, passando por uma postura de singer-songwriter que privilegia melodia e emoção . Em um momento em que boa parte da música pop brasileira ainda era em português, a escolha pelo inglês conferiu ao disco um ar cosmopolita e atemporal. A maturidade artística é surpreendente para alguém de apenas 22 anos à época.

Recepção da crítica e impacto cultural
Críticas elogiaram a maturidade vocal de Tiago. Leoni disse que sua voz era “impressionante”, enquanto Serginho Herval destacou o talento técnico e musical de um artista também ainda iniciante. O álbum atingiu a 7ª posição na Japan Albums Chart em 2009, e ainda rendeu visibilidade na Ásia. Comparado com seu segundo álbum Umbilical (2011), que traria uma sonoridade mais introspectiva e experimental com produção internacional, Let Yourself In apresenta-se como o momento da descoberta de sua voz em estado puro. O impacto cultural não foi imediato massivo, mas construiu uma base sólida de fãs virtuais e abriu portas para a carreira internacional e trilhas sonoras que se seguiriam nos álbuns posteriores.

Curiosidades e bastidores
Nothing But a Song ficou famosa após ser incluída em novelas, o que levou à assinatura com Som Livre graças ao interesse gerado por esse single.
O lançamento no Japão em julho de 2009 trouxe capa diferente e faixa bônus, além do reconhecimento no país oriental, onde o disco alcançou 7º lugar nas paradas.
Tiago abriu a turnê brasileira de Jason Mraz em 2009, consolidando sua performance ao vivo e contato com novos públicos.

Let Yourself In é mais que um álbum de estreia: é um convite sincero e delicado, uma porta de entrada para um universo emocional que Tiago Iorc construiria em toda sua carreira. Com composições em inglês fluídas, voz doce e arranjos sóbrios, o disco anuncia talento e autenticidade. É a raiz desse cantor que se transformaria, ainda nos próximos álbuns, em referência da MPB contemporânea – especialmente quando migraria para o português com uma maturidade e profundidade ainda maiores. Para fãs e novos ouvintes, Let Yourself In permanece essencial: um retrato puro e belo de um artista que começou apaixonando corações com calma e sentimento.


Faixas
01 - No One There
02 - Blame
03 - Fine
04 - Nothing But A Song
05 - Scared6. Ticket To Ride
07 - There's More To Life
08 - It's Not Time
09 - My Girl
10 - When All Hope Is Gone
11 - Nothing But A Song (Acoustic/Bônus Track)